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Você deixa seu filho brincar de boneca? Não tem medo que ele vire ...

Brincar é preciso!

Gosto muito desta imagem, que vem circulando na internet há algum tempo, por duas razões. A primeira, à qual não vou me deter muito neste texto, é a questão do gênero, fonte de dúvidas e temores para os pais. Aos que ainda se sentem amedrontados, podem acreditar na mensagem: brinquedos e brincadeiras não têm nenhum poder de determinar a sexualidade de seus filhos. Afinal, crianças chegam ao mundo sem qualquer padrão de comportamento definido. Então, o que elas enxergam no brinquedo é apenas um objeto interessante e legal para brincar, e pronto.

E brincadeira me leva à segunda ideia que a mensagem transmite, de ainda mais importância: a de que as crianças aprendem brincando. Para elas – e para muitos de nós – pode ser apenas diversão. Mas é fato já comprovado por estudiosos do comportamento: é na infância que temos a chance de exercer diversos papéis e aprender com eles. Quando um menininho ou menininha pega o jogo de panelas (seja o de brinquedo, ou aquele que está no paneleiro da cozinha, ainda mais interessante) e finge que está cozinhando, eles estão imitando o adulto (e experimentando ser aquela pessoa que sabe tantas coisas); eles estão aprendendo como funciona aquele processo (colocar a comida na panela, acender o fogo, mexer o alimento com a colher...) e os cérebros deles estão a mil por hora, registrando aqueles fatos novos, fazendo as conexões necessárias para que eles desenvolvam o raciocínio e as habilidades motoras. Tudo isso através da brincadeira.*

Boa parte disso acontece no período que os pesquisadores chamam de “primeira infância”, ou de 0 a 6 anos. É nessa época que o cérebro das crianças amadurece, que elas adquirem movimentos, desenvolvem sua capacidade de aprender e se iniciam nas relações sociais e afetivas. Não é por acaso, então, que a educação escolar formal só começa aos seis anos. Nessa fase, o cérebro das crianças já terá o amadurecimento necessário para receber e absorver as informações que virão: escrita, leitura, matemática. É por isso que esses aprendizados, antes dessa idade, podem ser difíceis e penosos para algumas crianças. E mesmo para as que têm “facilidade”, submetê-las a esses aprendizados aos 3, 4 anos não significa que elas estarão à frente das outras crianças – o que é um tipo de pensamento comum aos pais que se preocupam com o mundo competitivo de hoje.

Para que serve, então, a educação infantil, ou pré-escola? Há várias formas de encará-la: para alguns pais, é o lugar em que as crianças são cuidadas enquanto eles trabalham; para outros, é a oportunidade de “adiantar” os aprendizados da escola formal. Já eu acredito que a pré-escola deve ser o lugar em que crianças são cuidadas sim, mas também possam desenvolver laços afetivos com seus cuidadores, onde sejam acolhidas e respeitadas. E, além de tudo isso, o lugar em que possam brincar.

Foi pensando assim que eu cheguei até a Ponto de Partida. Sem nenhuma indicação de ninguém próximo, mas pesquisando no bairro ouvi alguns comentários. Me surpreendi logo na primeira conversa com a diretora, Carmen Farias, que me perguntou o que eu esperava da escola - ao contrário de todas as outras diretoras de escolas que visitei, que já de cara se punham a listar o que o local em questão oferecia em termos de higiene, alimentação e aulas. Fiquei também admirada ao ouvi-la dizer que ali na Ponto ninguém tinha como objetivo fazer com que a criança saísse de lá alfabetizada ou fazendo contas. Como isso aconteceu há 7 anos, não me recordo da fala exata da Carmen, mas foi mais ou menos assim: “Sabe, hoje existem alguns pais muito ansiosos para que as crianças aprendam conteúdos na pré-escola. Aqui, a gente ensina muita coisa, sim, mas sem criar expectativas. Aqui, a gente valoriza a brincadeira, o acolhimento”, disse. Eu percebi então que tudo aquilo que ela verbalizava tão bem era o que eu buscava: “Eu também penso assim, é isso que quero!”, respondi. Ao longo dos 5 anos que meu filho Martin frequentou a Ponto eu fui reafirmando essa certeza. E hoje, ao pensar nisso tudo para compor este texto, decido entrevistar o principal interessado: “Filho, do que você mais gostava na Ponto de Partida?”. Não demorou muito para que ele elencasse, nesta ordem: “Dos brinquedos do pátio, de ser assistente da professora na classe...ah, e de uma caixa cheia de tampinhas que a Marília (professora do G5) dava para a gente criar coisas”, disse. E mais uma vez eu soube que a escola cumpriu com todas minhas expectativas.

*Aos interessados nos benefícios cognitivos e motores das brincadeiras, vale ler sobre esta pesquisa http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2016/09/uso-de-eletronicos-em-excesso-atrasa-desenvolvimento-infantil-diz-unicamp.html.

Lucila Vigneron Villaça é jornalista especializada em decoração, design e arquitetura, mãe do Martin, e curiosa sobre os temas da maternidade, educação, bem-estar e comportamento. Adora escutar histórias, observar a vida, e é partidária do bom-humor e da gentileza.


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